quinta-feira, 29 de abril de 2010

Operário da Modernidade

Praticamente cresci e fui criado em São Paulo. Meus familiares vieram para esta cidade quando eu era ainda bebê-de-colo. Meu pai trouxe o pequeno capital que obtivera com a venda de um armazém de secos e molhados em Piracicaba e, com ele, instalou-se na zona leste, bairro da Penha. Era também um armazém, com o qual sustentou a família e “nos estudou”. Hoje, isso seria impossível, pois os supermercados “mataram” o armazém.
Eu segui outro caminho: trabalhei inicialmente numa loja de tecidos do bairro do Tatuapé e depois acabei me fixando no escritório de uma indústria de garrafas térmicas no bairro da Pompéia, onde estou até hoje.
A Penha é um bom bairro, possui um comércio muito diversificado e apresenta preços bem acessíveis, coisa que já não é assim no nosso Shopping, o “cartão de visita” do Bairro.
Na verdade, sempre fiz compras para mim e para minha família no centro da cidade. Hoje, ficou mais difícil, até porque muitas lojas se fecharam ou se mudaram para bairros mais distantes. Dessa maneira, procuro deixar para as finais de semana, no próprio bairro ou, dependendo da urgência que tenho, acabo comprando o necessário no próprio bairro onde trabalho; ali, no entanto, os preços são um pouco menos atrativos.
Atualmente, perdemos muito tempo na condução; ainda bem que, com o metrô, as coisas melhoraram um pouco, pois os congestionamentos atrasam muito o nosso deslocamento. No metrô, suportamos a lotação do mesmo mas podemos chegar mais rápido.
Mas, apesar disso tudo, só posso agradecer aos céus pela fortuna de ter um emprego fixo a mais de 20 anos. Na época em que, por indicação de amigos, consegui o posto na fábrica de garrafas térmicas, empregar-se era muito fácil; bastava Ter estudo e um pouco de sorte. Hoje, o fantasma do desemprego aterroriza a todos e eu – por que não? – também não posso me sentir absolutamente seguro. Por isso mesmo, sacrifico algumas das poucas horas que tenho para a família à noite e estou constantemente me aperfeiçoando: inglês, computação, técnicas de vendas...Ainda bem que há boas escolas no bairro.
Voltar para a casa altas horas da noite, é hoje muito problemático; corremos o risco de ser assaltados e até mesmo de enfrentar problemas maiores. Eu mesmo já fui vítima de dois assaltos no bairro; só que hoje a coisa está cada vez pior e acontece em toda cidade. Certamente, o desemprego tem muito a ver com isso.
Uma coisa realmente me deixa triste: só me restam os finais de semana para dar atenção à família: o problema é que as opções de lazer reduziram-se muito em São Paulo e a televisão acaba nos “trancando em casa” até nos belos domingos de sol. Cinema? Só os de shopping: é preciso torcer para que haja um bom filme. Restaurante, para almoçar com a família? Uma vez por mês, para não desestruturar o orçamento. Passear nos parques já não é uma boa opção, pois os mesmos estão muito mal cuidados. O centro era um lugar onde havia tantas atrações; hoje, à noite e nos finais de semana, vira um deserto, pois ninguém mora lá e não há movimento dos dias em que o comércio permanece aberto, os bancos e os escritórios que lá funcionam e as pessoas vão à cidade. Foi-se também o tempo em que se podia praticar esporte nos campos de várzea, que as marginais do Tietê e do Pinheiros fizeram morrer.

Álvaro José de Souza

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