quinta-feira, 29 de abril de 2010

Por Um Prato de Comida

Do Nordeste para cá havia a ilusão de uma vida melhor. Tudo deu errado: São Paulo não tinha mais emprego e nem era uma cidade tão rica quanto pensávamos eu, a mulher e seis filhos, dois ainda de colo. Ricos são apenas os donos dos prédios cheios de luxo, das lojas com vitrines maravilhosas, nas ruas e nos shoppings. No mais, tudo é uma luta sem fim, onde poucos vencem e muitos se danam.
Estamos por aqui há mais de sete anos – nem me lembro exatamente o quanto. No início, ainda deu para trabalhar como servente de pedreiro em algumas construções, prédios muito bonitos espalhados por vários lugares da cidade. Morávamos em alojamentos eu e meus dois filhos maiores; a patroa e os pequenos viviam da bondade dos amigos que também sofriam igual a nós, que se apertavam com eles em quartos que eram alugados em palacetes abandonados no centro da cidade.
Nunca pude estudar e jamais deu para fazer meus filhos estudarem. Por isso, tudo foi ficando ainda mais difícil e quando o trabalho foi ficando impossível, o jeito foi pegar a família e ir morar em baixo de um viaduto, onde, ao menos, temos um chão, uma cobertura e ficamos protegidos da chuva. Bendita cidade que tem tantos viadutos, tanto lugar para receber o pobre.
Moro perto do centro da cidade, lugar com muito movimento a qualquer hora do dia e da noite; carros, ônibus e caminhões passam a todo momento, mostrando a riqueza tão próxima, mas que foge do alcance de nossas mãos. Ela fica do outro lado da vitrine, no interior das lojas, no interior dos carros. E nós, como tantos outros, só podemos olhar.
Mas esta cidade é mesmo incrível: enorme, cheia de prédios, de ruas, de avenidas, cheia de gente. Não dá para Ter idéia da sua grandeza, pois ela vai muito além de onde nossos olhos podem enxergar. Aqui, apesar de tudo, vivemos em paz: as pessoas passam por nós sem nos pergutarem quem somos ou para onde vamos. Ás vezes, a polícia faz isso, nos expulsa do lugar onde moramos, nos enxota; mas são só eles. Há aqueles que parecem gostar de nós, deixando na rua colchões, camas, latas e tanta coisa útil: uma riqueza que jamais encontrávamos em nosso lugar de origem, no Nordeste.
Com a riqueza das ruas, consegui construir um carrinho com dois pneus; com ele, sou catador de papel, vidros e madeira. Trabalho o dia todo para vender isso num ferro velho distante 4 léguas daqui, mas que me garante o prato de comida para mim e para a família todos os dias, preparado num bar próximo daqui. Quando o dinheiro falta, temos que distribuir um só prato entre 2 ou 3 e, com isso, vamos tocando a vida.
Voltar para o norte! Nem pensar! Além de não termos dinheiro para isso, esta é uma cidade abençoada. As pessoas põem na rua tudo o que não querem mais e isso mostra que estamos num lugar muito rico onde até mesmo os pobres têm vez. Não fosse a polícia, ninguém nos incomodaria mas, como isso não é todo dia, até não é problema maior. O engraçado é que, mesmo assim somos importantes, pois há muita gente, rica, fina e bem vestida que foge de nós: afinal de contas, somos alguém e até chegamos a preocupar os outros. Por isso, amo esta cidade e penso que ela nos respeita.

Álvaro José de Souza

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